A democratização da análise e o acesso desigual

Quando olho para o cenário da saúde mental no Brasil, percebo algo que há anos me inquieta: quem mais precisaria de um espaço de análise é justamente quem menos tem acesso a ele. Isso não acontece por falta de interesse das pessoas, mas por uma combinação muito mais profunda entre desigualdades sociais, raciais e territoriais. A Psicanálise, como espaço de escuta e elaboração, deveria estar inserida nas camadas mais vulneráveis da sociedade. Mas o que vemos é um sistema que ainda limita esse acesso, deixando de fora vidas que carregam histórias emocionais intensas e que se beneficiariam enormemente desse tipo de cuidado.

O peso dos números: saúde mental como urgência pública

Relatórios recentes mostram uma realidade que não pode mais ser ignorada. A Organização Mundial da Saúde divulgou, em 2025, que mais de um bilhão de pessoas em todo o mundo convivem com algum tipo de transtorno de saúde mental. No Brasil, estima-se que cerca de 30% da população enfrentará algum transtorno ao longo da vida.

Ainda assim, os dados sobre acesso são preocupantes. O Instituto de Estudos para Políticas de Saúde aponta que mais de 70% das pessoas com sintomas de depressão no Brasil não recebem qualquer tipo de tratamento. E esse índice é ainda mais alto entre pessoas negras e pobres. Esses números revelam que o problema não está apenas na saúde individual, mas na forma como o país estrutura o cuidado emocional da sua população.

Psicanálise é cuidado, mas também é política pública

A análise não é um serviço que existe isoladamente. Ela faz parte de um ecossistema. E esse ecossistema depende de políticas públicas sólidas, investimento contínuo e reconhecimento da importância da saúde mental como um direito.

A Psicanálise oferece um tipo de escuta que acolhe a subjetividade, a história emocional, as dores profundas e o inconsciente. Esse tipo de cuidado deveria estar disponível em benefício de todos, especialmente daqueles que vivem atravessados pela violência, pelo racismo, pelo trauma e por desigualdades históricas.

Mas ainda temos um longo caminho a percorrer para que isso aconteça.

As lacunas da rede pública de saúde mental

A rede pública de saúde mental existe, mas é insuficiente. O número de Centros de Atenção Psicossocial é menor do que o necessário, e muitos municípios sequer contam com serviços especializados. Isso cria vazios enormes, onde populações inteiras não encontram suporte adequado, especialmente em regiões periféricas ou em cidades menores.

Além disso, políticas de prevenção e de cuidado continuado ainda não são tratadas com a urgência que merecem. A saúde mental continua sendo, muitas vezes, um tema secundário na agenda política, apesar do tamanho da demanda. Quando a política pública não cobre o essencial, o acesso se torna desigual. E quem fica fora é justamente quem não deveria ficar.

Clínicas sociais e projetos de formação: caminhos que precisam crescer

Existem iniciativas fundamentais que precisam ser fortalecidas: clínicas sociais vinculadas a institutos de formação, projetos de atendimento por valores acessíveis, programas comunitários que integram Psicanálise e território. Esses espaços oferecem escuta qualificada e contínua para pessoas que, de outra forma, não teriam condições de buscar ajuda.

Mas ainda são ilhas. O que precisamos é de um continente. Quando penso em democratizar a análise, penso em ampliar essas redes, consolidá-las e integrá-las à política pública. Penso na Psicanálise como parte de um cuidado coletivo e estruturado, não como um privilégio restrito a poucos.

Saúde mental como direito, não como benefício

Acredito profundamente que saúde mental é um direito e que a análise pode ser uma ferramenta transformadora na vida das pessoas. Mas, para que esse direito se efetive, precisamos olhar para o sistema e reconhecer: não basta boa vontade individual. É preciso estrutura, financiamento, políticas sérias e compromisso social.

O Brasil tem potencial para avançar muito nesse campo. E esse avanço começa quando reconhecemos que o cuidado emocional não pode depender apenas das possibilidades financeiras de cada pessoa, mas de uma rede que a sociedade decide sustentar de forma coletiva.

Democratizar a análise é olhar para a política pública com coragem e defender que ninguém deve ficar sem escuta porque nasceu em um território vulnerável ou carrega marcas sociais que o colocam à margem. A análise transforma vidas. O desafio agora é transformar também o acesso a ela.

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