Existem sentimentos que tentamos esconder por considerá-los feios ou proibidos. A raiva dos pais costuma ser um deles. Ela aparece como um incômodo que preferimos ignorar, mas que insiste em se manifestar nos relacionamentos, nas escolhas e até nas dores que carregamos na vida adulta.
O que muitas pessoas não sabem é que sentir raiva dos pais não significa ingratidão, crueldade ou desamor. Significa humanidade. E, na perspectiva da Psicanálise, é justamente a validação desse afeto que abre o caminho para um perdão verdadeiro. Porque ninguém perdoa aquilo que não pôde reconhecer.
A raiva como parte da história emocional
Ao longo do desenvolvimento, a criança depende profundamente dos pais para existir no mundo. Quando algo falha nesse processo, o corpo emocional registra a dor antes mesmo que exista linguagem para nomeá-la. Essa dor pode se transformar em ressentimento, frustração, tristeza ou raiva.
Mas, por serem figuras idealizadas, muitas vezes os pais se tornam intocáveis. A pessoa sente, mas não se permite sentir. Sabe que algo machuca, mas não consegue colocar em palavras. E é aí que o trabalho analítico encontra um de seus movimentos mais importantes: dar lugar ao que sempre foi engolido. É nesse ponto que eu costumo lembrar de um episódio clássico de Winnicott dizendo a uma paciente que ele também odiava a mãe dela pelo que ela a fez passar. Não era crueldade. Era validação. Era permitir que ela finalmente reconhecesse um afeto que estava congelado dentro dela.
Só é possível elaborar aquilo que pode existir
Quando alguém consegue falar sobre a raiva sem ser interrompido, interpretado ou condenado, algo dentro dessa pessoa finalmente respira. É como retirar um peso que estava silenciosamente acumulado há anos.
Validar a raiva não é incentivar o ataque, mas reconhecer o que foi vivido. É admitir que houve falhas, que houve ausência, que houve dor. E que essa dor não invalida o amor que também existiu. O que invalida é o silêncio. O que adoece é não poder dizer. A análise cria o espaço onde a raiva encontra palavras. E, quando ela encontra palavras, encontra também um lugar seguro para se transformar.
O perdão não nasce da negação
O perdão verdadeiro não nasce da obrigação ou da pressa. Ele nasce do encontro com a própria história, sem máscaras. Perdoar os pais não é apagar o que aconteceu, mas compreender os limites que eles tinham, as dores que carregavam e o que estava além da capacidade deles naquele momento.
O paciente só chega a esse ponto quando antes pôde sentir tudo. Inclusive o que considerava proibido. Por isso, insisto que o processo de cura passa por legitimar o afeto e não por sufocá-lo. A raiva precisa existir para, depois, deixar de ser o centro da vida psíquica.
Abrindo espaço para uma nova leitura da própria história
Quando a raiva é dita, ela perde o trabalho silencioso de corroer por dentro. E, aos poucos, surge a possibilidade de olhar para a própria vida com mais gentileza. O que antes era vivido como um ataque pessoal começa a ser entendido como parte da história dos próprios pais, que também vieram das suas dores, das suas faltas e dos seus traumas.
É nesse ponto que o perdão pode surgir. Não como imposição, mas como consequência. Não como romantização, mas como amadurecimento emocional. Reconhecer a raiva é reconhecer a si mesmo. E, quando isso acontece, a relação com o passado deixa de ser uma prisão e passa a ser um território possível de ser habitado com mais leveza.





