Como escolher um bom analista

Muitas pessoas me perguntam como começar um processo de análise e, principalmente, como escolher um bom analista. Sempre respondo que essa é uma das escolhas mais delicadas que alguém faz ao iniciar sua jornada emocional, porque não se trata apenas de técnica. Trata-se de encontro. E encontro não se força. Ele acontece ou não acontece. A análise exige tempo, entrega e confiança. Por isso, antes de pensar em grandes teorias, é importante voltar ao essencial: como você se sente quando está diante daquele profissional?

O primeiro critério é simples: acolhimento

Não existe análise possível sem acolhimento. A pessoa precisa sentir que pode existir ali sem medo, sem julgamento e sem pressa. Acolhimento não significa excesso de doçura ou um cuidado superficial. Significa presença real. Significa alguém que escuta o que você diz, mas também o que você ainda não consegue dizer. Se nas primeiras conversas você percebe que está mais preocupado em agradar o analista do que em falar de si, algo já começa torto. O consultório precisa ser um espaço onde você pode respirar, e não um lugar onde precisa se justificar.

Confiança é uma construção, mas o primeiro sinal importa

Confiança não nasce inteira, mas nasce de um sinal. Pode ser a maneira como a pessoa te olha, a calma com que te escuta, a sensação de que você é recebido. Se não houver esse primeiro movimento interno, é difícil que o processo avance. Ao mesmo tempo, é importante saber que confiança não é conforto absoluto. Às vezes sentir desconforto faz parte. O que diferencia é a qualidade desse desconforto. Ele é fruto de um processo emocional que está se movimentando ou é fruto de uma relação que não se sustenta? Isso só você sente.

Existe ou não existe “liga”?

Eu acredito profundamente nesse ponto. A análise é uma relação humana antes de ser uma técnica. Tem vezes em que o analista é competente, experiente, estudioso, e mesmo assim não cria vínculo com você. Isso não torna ninguém inadequado. Apenas significa que não houve encontro. E também acontece o contrário: você encontra alguém menos experiente, mais jovem, mas sente que ali existe espaço para existir. A liga emocional não tem receita nem garantia. Ela se percebe.

Sobre credenciamento e instituições sérias

Embora a relação seja essencial, não posso ignorar o valor da formação. Procurar profissionais vinculados a instituições reconhecidas, com supervisão, estudo constante e comprometimento ético, é uma forma de cuidado. Não garante tudo, mas ajuda. O que eu sempre digo é: técnica sem acolhimento não funciona. Acolhimento sem técnica também não. É preciso as duas coisas. A análise é um trabalho profundo demais para ser sustentado apenas por boa vontade.

Nem sempre o paciente está preparado

Há casos em que a pessoa passa por vários analistas e acredita que nenhum serve. Mas, muitas vezes, o que está acontecendo é outra coisa: a impossibilidade de confiar em alguém. A dificuldade de permanecer. A pressa de concluir algo que ainda nem começou.

Eu já vi pessoas interromperem em dois meses dizendo “você já me ajudou demais”. E eu mal havia começado.

É preciso coragem para se entregar a um processo que mexe com tudo. Coragem para suportar os próprios conteúdos. Nem sempre o problema está no profissional. Às vezes está na dificuldade de permitir que alguém chegue perto.

Fuga do analista ou fuga de si mesmo?

Esse é um ponto delicado. Fugir de um bom analista pode ser uma forma de fugir da própria dor. Fugir de um analista ruim, por outro lado, é um ato de proteção. Saber diferenciar uma coisa da outra exige sinceridade com você mesmo.

A pergunta que sempre oriento é: estou saindo porque algo não está funcionando na relação ou porque algo dentro de mim está sendo tocado e eu não quero olhar? A análise exige tempo, paciência e um pouco de humildade para admitir que crescer emocionalmente é trabalhoso. É bonito, mas é trabalhoso.

No fim das contas, escolha quem te permite existir

Se há algo que aprendi ao longo da vida e da minha própria análise é que um bom analista não é alguém perfeito. É alguém comprometido com o seu percurso emocional. Alguém que te escuta sem te reduzir. Alguém que te acompanha sem te aprisionar. Alguém que sustenta o processo enquanto você atravessa suas dores e redescobre suas próprias forças.

Se você sai das primeiras conversas sentindo que há verdade, segurança e espaço, isso já é um ótimo sinal.

Se sente que pode ser você, mesmo nos dias difíceis, melhor ainda. A análise é, antes de tudo, um encontro. E quando esse encontro acontece, algo dentro de nós começa, finalmente, a encontrar um lugar para viver.

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