Você já se perguntou por que algumas pessoas vivem se boicotando?
Ou por que certos sintomas aparecem sem explicação médica?
Às vezes, a dor que sentimos no corpo não tem uma causa física clara. E o medo excessivo de adoecer, mesmo sem sintomas graves, pode dizer muito mais sobre nossa história emocional do que imaginamos.
Esse medo — tão comum hoje — é chamado de hipocondria quando se torna constante e desproporcional. Já quando o corpo manifesta sinais reais, mesmo que não haja uma doença identificável, chamamos de somatização. Mas o que essas manifestações têm em comum?
Ambas carregam um pedido silencioso por escuta. Algo ali quer ser visto, reconhecido, acolhido.
Muitas vezes, o corpo fala o que a psique ainda não conseguiu elaborar. E nesse ponto, entra um elemento muito presente no consultório: a culpa.
Mas não aquela culpa lógica, por algo que sabemos ter feito. Falo de uma culpa inconsciente, que aparece como um sentimento constante de inadequação, como se a pessoa sempre tivesse que se castigar. E quando isso acontece, ela pode entrar num roteiro invisível de fracasso.
São pessoas que vivem se auto-recriminando, que sabotam as próprias conquistas, que inconscientemente criam situações de sofrimento. Como se, lá no fundo, não acreditassem que têm o direito de serem felizes.
Esse tipo de culpa pode vir de muitas fontes. Às vezes, da infância. Às vezes, de vivências que foram sentidas como erradas mesmo sem serem compreendidas. E tudo isso pode formar, ainda nos primeiros meses de vida, um roteiro psíquico de não pertencimento.
Você já reparou como algumas crianças vão bem na escola, mas não demonstram nenhuma alegria verdadeira?
São “boas demais”, não dão trabalho, não contestam — mas também não vibram. Muitas vezes, estão apenas engolindo o desejo da mãe, vivendo para agradar, sem contato com o que sentem de verdade.
E esse padrão se repete na vida adulta.
Pessoas que fazem o que esperam delas, mas não sabem o que querem. Que têm dificuldade de sentir prazer genuíno. Que vivem em função do que o outro espera, e não do que pulsa dentro.
No fundo, esse tipo de funcionamento pode estar ligado a algo que faltou lá atrás: um tempo de ilusão, aquele momento fundamental para o bebê construir uma noção de si mesmo, separado da mãe. Quando isso não acontece, a realidade chega de forma muito abrupta. E o mundo interno fica confuso, às vezes fragmentado.
Mas há um ponto de virada importante:
quando conseguimos integrar o bom e o mau como partes de uma mesma experiência, começamos a nos reconhecer de forma mais inteira. A mesma pessoa que me frustra pode ser também a que me acolhe. O mesmo sentimento que me assusta pode me mostrar algo importante sobre mim.
E é nesse processo que surgem o remorso, a reparação e, aos poucos, o desejo de viver de forma mais autêntica.
Por isso, hoje, deixo aqui algumas perguntas — não para serem respondidas com pressa, mas para acompanharem você por um tempo:
- Você consegue reconhecer o que sente, ou prefere agir para não ter que pensar?
- Consegue lidar com o erro, ou se castiga sempre que as coisas saem do controle?
- O que o seu corpo está tentando dizer quando adoece?
- Há espaço, dentro de você, para se acolher sem julgamento?
- O que te impede de viver com mais leveza?
Talvez você descubra que, por trás de muitos medos e sintomas, há apenas uma parte sua que ainda não foi escutada.
E escutar essa parte pode ser o início de uma nova forma de existir.