Em algum momento da vida, todos nós somos atravessados por essa pergunta. E, para respondê-la de verdade, talvez seja preciso antes olhar com cuidado para as nossas bases emocionais.
O narcisismo — palavra muitas vezes mal compreendida — pode ser uma chave de leitura importante para entender o que nos move (ou paralisa). Há, inclusive, dois tipos de narcisismo: o de vida e o de morte.
O narcisismo de vida é aquele que nos fortalece. É o amor-próprio que nos faz cuidar do corpo, investir nos nossos vínculos, buscar nosso desenvolvimento pessoal, profissional, emocional. Ele está ligado à preservação da vida e à vontade de viver com mais qualidade.
Já o narcisismo de morte surge como uma defesa psíquica quando faltaram, lá atrás, cuidados importantes — tanto físicos quanto emocionais. Ele nos desconecta do desejo, nos faz acreditar que precisamos exigir que as coisas venham até nós, sem esforço. Como se buscar o que precisamos fosse, de algum modo, uma humilhação.
Você já viu esse tipo de comportamento? Em crianças, pode aparecer assim: hoje tenho um amigo, amanhã ele não me chama para brincar, então virou meu inimigo. Há muitos adultos que vivem assim — presos a um funcionamento narcísico que não tolera frustração, rejeição, limites. Pessoas que não suportam o “não”. Que se defendem da dor com arrogância. Que não constroem porque temem o desapontamento.
Esse funcionamento aparece também nas pessoas que se contentam com qualquer coisa, mas, no fundo, estão anestesiadas. Aquela criança que nunca dá trabalho na escola e não abre a boca — muitas vezes está refugiada no narcisismo, protegida por uma barreira silenciosa contra aquilo que ela nem consegue nomear.
Porque, antes de desejar, é preciso reconhecer as necessidades. E quando isso não acontece, o medo de tudo que é novo se instala. Só que o novo, ainda que possa frustrar, também pode abrir caminhos que nem imaginávamos.
Há pessoas que passam a vida tentando se proteger do que sentem, vivendo como se estivessem sempre prestes a serem atacadas — por dentro e por fora. Viver, para elas, não é presença, mas defesa. E, sem perceber, entregam-se a uma existência repetitiva, muitas vezes guiadas por culpas inconscientes ou roteiros familiares rígidos, dos quais não conseguem sair.
A inveja, por exemplo, é uma consequência direta do narcisismo de morte. Primeiro, a pessoa olha para fora. Depois, percebe que aquilo que vê não está nela. Então, desqualifica. E fica com uma sensação de injustiça profunda. Em alguns casos, esse sentimento se transforma em condenação: “nunca vou ter isso”, “não sou suficiente”. A agressividade de vida se transforma em impotência.
Isso aparece de forma muito forte na clínica. Quantas vezes vemos pessoas que não conseguem sustentar um trabalho, não constroem vínculos, vivem em constante desistência — porque, no fundo, acreditam que desejar é perigoso. E que buscar algo é expor-se ao risco de não conseguir.
Mas não é só isso. Algumas pessoas, mesmo com uma história difícil, conseguem ir além. Na minha prática, acompanho casos assim. Uma paciente, por exemplo, cresceu com uma mãe extremamente invasiva — daquelas que não reconhecem a filha como um ser separado. Uma mãe que decide qual faculdade ela deve cursar, que entra no ambiente de trabalho da filha sem ser chamada, que se convida para ficar dias na casa do casal, mesmo sem saber se será bem-vinda.
Essa paciente teve uma infância marcada por compulsões, perfeccionismo extremo, crises de burnout ainda jovem. Mas, apesar de tudo, se tornou uma profissional brilhante. E ainda me pergunto: como ela não adoeceu gravemente com esse histórico?
Talvez porque o desejo, apesar de tudo, tenha resistido.
É por isso que é tão importante reconhecermos as nossas identificações primárias e secundárias, nossos conteúdos não simbolizados — como o autoritarismo e a submissão. Entender onde estamos repetindo roteiros que não são nossos. E construir algo diferente: sentimentos de gratidão, alegria, prazer em viver. Relações menos baseadas em controle e mais em presença.
Talvez valha a pena nos perguntarmos:
- De onde vem a minha forma de reagir às frustrações?
- Eu consigo desejar de verdade ou me protejo do desejo?
- O que eu busco quando insisto na performance e esqueço da intimidade?
- O que é íntimo e o que é público em mim?
- O que é eterno e o que é passageiro nas minhas escolhas?
Para viver, é preciso suportar a realidade. E para suportá-la, precisamos nos conhecer. Assim, quem sabe, passamos a valorizar mais o que realmente importa — não o que esperam de nós, mas o que pulsa em nós.