Existe um ponto em comum entre todas as histórias humanas e ele começa no mesmo lugar: o desamparo.
Nas primeiras experiências de vida, ainda antes das palavras, somos inteiramente dependentes de alguém que nos veja, nos toque e nos organize emocionalmente. E é aí que se forma a base mais profunda do que chamamos de eu.
Mas ninguém chega completamente pronto a esse mundo. Somos, desde o início, atravessados pela presença ou pela ausência dos outros. E isso não é falha. É condição humana.
Porque antes de aprender a caminhar, a falar ou a desejar, precisamos aprender a existir.
O olhar que nos inaugura
A Psicanálise chama de “olhar organizador” aquilo que a mãe, ou quem exerce essa função, oferece à criança nos primeiros momentos. É esse olhar que diz: “Você está aqui. Você é percebido. Você faz sentido.”
Quando esse olhar chega com ternura, algo se assenta dentro de nós. Quando não chega, ou chega de forma borrada, a criança tenta existir sem espelho. E isso dói de um jeito que só aparece, anos depois, nas perguntas mais íntimas:
“Por que eu me sinto tão só?”
“Por que eu nunca me acho suficiente?”
“Por que eu preciso tanto do outro para me sentir alguém?”
Essas perguntas não são defeitos. São marcas de uma história emocional.
Se faltou antes, é possível construir depois
É comum acreditar que tudo o que não recebemos na infância está perdido para sempre.
Mas Lucy repete em muitas das suas narrativas clínicas e pessoais: o desamparo não é sentença, é ponto de partida.
A análise existe justamente para isso: para oferecer, na vida adulta, um encontro que possa reorganizar o que faltou lá atrás. Acolher a nossa própria história é, no fundo, aprender a fazer internamente aquilo que um dia alguém não conseguiu fazer por nós.
E é por isso que, aos poucos, deixamos de ser abandonados quando começamos a nos acolher. Quando enxergamos aquela parte da nossa vida não mais com julgamento, mas com compreensão. Quando damos nome ao que antes só existia como dor muda.
Entre a falta e a construção de si
Crescer emocionalmente é um processo delicado. Exige reconhecer o que doeu, mas também reconhecer o que sobrevivemos.
Somos feitos daquilo que nos faltou. mas também do que conseguimos criar apesar da falta. E essa capacidade de criar um novo olhar sobre nós mesmos é uma conquista profundamente humana. Não exige perfeição, exige coragem.
Coragem para revisitar o passado. Coragem para resignificar o amor pelos pais, com todas as suas imperfeições. Coragem para admitir que, mesmo quando algo foi devastador, nós seguimos.
Porque sobrevivemos. E isso já diz muito sobre quem somos.
No fundo, o desamparo nos revela
Se existe uma verdade que atravessa todas as histórias que passam pelo meu consultório é esta: ninguém se forma sozinho.
Precisamos de acolhimento para existir. Precisamos de presença para nos organizar.
Precisamos de amor para nos reconhecer.
Mas, quando o amor inicial chega truncado, frio ou distante, a vida ainda assim pode se reconstruir pela análise, pelos encontros, pelos afetos posteriores e pelo nosso próprio olhar mais gentil sobre o que fomos.
O desamparo é o começo. O restante, construímos ao longo da vida. E, mesmo entre feridas e sobrevivências, é possível encontrar uma forma de viver com inteireza. Uma forma de existir sem desaparecer de si.





